30.01.2012
Relaxar é preciso
por Anderson Silva
Sexta-feira, 18h. Enquanto a maioria dos executivos se prepara para curtir o final de semana é comum que um ou outro profissional permaneça concentrado no trabalho, envolto em papéis e números. Questionado se pretende trabalhar até mais tarde, responde afirmativamente com a cabeça e sequer olha para o colega de trabalho. Horas depois ele vai para casa, mas continua a pensar no trabalho e no relatório que terá de preparar até segunda-feira. São os profissionais viciados em trabalho (workaholics) ou que não conseguem se desligar, para quem relaxar longe das tarefas corporativas é cada vez mais difícil em metrópoles como São Paulo – famosa por ser a “cidade que não para”.
Para a psicóloga e vice-presidente de projetos da Associação Brasileira de Qualidade de Vida (ABQV), Samia Simurro, a tecnologia e a pressão por resultados contribuem para que o profissional não consiga estar completamente relaxado nos dias de folga. “O número de profissionais que trabalha utilizando celular e laptop da empresa é enorme. Isso faz com que eles se sintam na obrigação de estar disponíveis a qualquer hora. É a sociedade 24h”, diz. Para ela, isso cria tensão e o colaborador sente que não pode, de forma alguma, perder uma ligação ou demorar a responder um e-mail.
A opinião é compartilhada pela presidente do International Stress Management Association no Brasil (ISMA-BR) e diretora da Clínica de Stress e Biofeedback de Porto Alegre, Ana Maria Rossi. Segundo ela, uma saída para que o executivo consiga se desligar do trabalho no final de semana é ter disciplina mental, treinar técnicas de relaxamento ou, simplesmente, criar rituais. “Só o fato de a pessoa tirar o relógio ou o sapato já ajuda. Ela vai criando esse ritual naturalmente e, aos poucos, desliga-se do trabalho”, sugere.
Ana Maria reconhece, no entanto, é muito difícil que executivas, principalmente casadas e com filhos, consigam descansar no final de semana, justamente por ter uma jornada de trabalho dupla, - às vezes tripla – incluindo o trabalho doméstico e o cuidado com os filhos. “Muitas mulheres ainda não conseguem delegar tarefas para seus maridos, pois acreditam que eles não conseguirão fazer o que lhe foi pedido tão bem quanto elas fariam”, diz.
Sem conseguir ter um final de semana de descanso, os primeiros sintomas de estresse começam a aparecer já no início da semana. “Se a pessoa não relaxou, dormiu mal ou teve dificuldades de pegar no sono, problemas como falta de atenção e irritabilidade são os primeiros passos para que ela desenvolva o estresse e até outras doenças”, exemplifica Ana Maria.
Programas de qualidade de vida
E qual o papel das empresas nesse processo? Para as especialistas, os programas de qualidade de vida oferecidos pelas companhias podem ser úteis para minimizar o estresse e aliviar a carga de tensão dos colaboradores, mas só isso não resolve o problema. “Os programas de qualidade de vida são soluções paliativas. Não adianta ter uma estrutura boa se o colaborador continua ficando até mais tarde todo dia no trabalho”, explica a presidente do Isma-BR, acrescentando que o profissional também deve estabelecer limites de horário e se organizar.
Pensando no bem estar dos colaboradores, a Apdata, empresa que desenvolve ferramentas para gestão de processos em recursos humanos, decidiu implementar melhorias para que ganho na qualidade de vida. Para a presidente da empresa, Luiza Nizoli, o importante é que o colaborador se sinta bem enquanto trabalha. “Se ele está com a adrenalina muita alta, disponibilizamos uma sala onde ele recebe massagens e descarrega a tensão”, exemplifica.
Ela conta que antes da criação dos espaços voltados ao entretenimento e ao lazer, há nove anos, muitas pessoas levavam trabalho para casa. “Hoje, com essas medidas, eles conseguem se organizar melhor e o final de semana fica pra descanso, como tem de ser”, diz.
Já no Grupo I9, empresa de tecnologia da informação, os colaboradores são incentivados a praticar hobbies, como explica o sócio-diretor da empresa, César Palmieri. “Atualmente temos programas de incentivo e subsídio para academia de ginástica e esportes praticados em grupo, como futebol”, diz. Palmieri acha importante que a empresa se preocupe com o bem estar do colaborador. “Não impomos horários e temos uma sala onde o colaborador pode jogar vídeo game ou ler um livro. Nosso ramo é muito estressante e sabemos que todos precisam estar muito bem para fazer frente à pressão do dia a dia”, diz.